Mário FONSECA
(1939 - 2009)

Biographie

Mario Alberto de Almeida Fonseca est né le 8 novembre 1939 à Praia et meurt le 25 septembre 2009, dans la même ville, à l'âge de 69 ans.
Fils d'Andreza de Barros et de Mário Ivo de Almeida Fonseca (1906-1985), il épouse Régina Natália Duarte Leite Arteaga Souto Maior (1942-), avec laquelle il a deux enfants: Jandira et Mário Osvaldo.
Animateur de cercle littéraire de la nouvelle génération, il a aussi été un militant anti-colonialiste, membre du PAICV.
Exilé politique, licencié en "Filologia românica" à l'Université de Dakar, parlant parfaitement le français et l'anglais, Mario Fonseca a exercé diverses activités en Afrique: professeur de français au Sénégal, administrateur et traducteur en Mauritanie et en Turquie.
De retour au Cap Vert après l'Indépendance, il devient, entre autre, le premier directeur exécutif de l'Instituto internacional de língua portuguesa (IILP) entre 1999 et 2001, une courte durée due à des problèmes de santé, ainsi que président de l'Instituo nacional da Cultura (INAC).

Il occupe le siège n° 36 des Patronos / Imortais da Academia Cabo-verdiana de Letras, fondée en 2013.

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Oeuvres Littéraires


Mario Fonseca est un écrivain, poète, essayiste, journaliste.
Co-fondateur du périodique culturel Seló en 1962, il collabora à de nombreux journaux lusophones et francophones, dont Cabo Verde, África, Internacional, Solidarité, Afrique, Horizonte, Cultura, Novo jornal Cabo Verde, Raízes, Poésie du monde noir...
Il devient journaliste régulier à A semana, puis à Expresso das ilhas.
Il a publié plusieurs ouvrages, dont le plus connu, O mar e as rosas, a été saisi en 1964, à Lisbonne, à la suite de la fermeture forcée de l'Association portugaise des écrivains par la Police politique.
Mon pays est une musique  est, quant à lui, une édition trilingue (français, portugais, anglais).
Par ailleurs, Mario Fonseca était très actifs dans les assosiations d'écrivains internationales.

Note: il existe plusieurs homonymes de Mario Fonseca, célèbres et écrivains, dont un Brésilien, qu'il est parfois difficile de différencier. Les catalogues de bibliothèques, tel worldcat.org, les mélangent, attribuant toutes les oeuvres à un seul et même auteur.

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FOME

Gargalhadas de escárnio
Rasgando
Até ás comissuras dos lábios
Máscaras irónicas
Mascarando dores
Sorrisos de hipocrisia
Desfazendo em biocos
Caras mulatas
Escondendo a fome
Torvos olhares de
Piedade
Encobrindo a troça
Encobrindo também
A indiferança
De almas esmagadas
Na procissão faminta
Pelas ilhas
Em solidão...

E a fome a desfazer-se
Em sorrisos de hipocrisia...
E a fome a desfazer-se
Em irónicas gargalhadas...

Crianças magras
Sobrecarregadas
Com o peso inútil
De enormes barrigas
Inchadas
Explorando
Anormalidades da natureza
Num esforço vão
De apaziguar
O animal horrendo
Crescendo-lhes
Por dentro
A voltear
A revoltear
A espernear
Boca escancarada
Língua pendente...
Crianças doentes
Abandonado
Imundas palhotas
Abandonando lágrimas
Gritos
Pedidos roucos
Para roubar
Pelas sombras da noite
Restos desprezados
De toscas refeições...




E a fome a estrangular...
E a fome a espernear...
Boca escancarada
Língua pendente...

Mulheres batidas
E rebatidas
Passeiam
Seus corpos usados
Pela calçada suja
Das ruas
Ruas servindo de leito
A noite
Quando as sombras
Já desceram sobre o mundo...
Mulheres condenadas
Esformeadas
Forjando
Perdidas sensualidades
Entre o cimento frio
E os corpos asquerosos
De vagabundos sifilíticos...

E a moeda
A tilintar...
E a fome a escoucear...

Bêbados
Desvairados
Pela febre
De mais um copo
Olhos aquosos perdidos
Num mar de "grogue"
Narinas farejando
Realidades
Dos sonhos
Das noites de orgia
Violão espancado
Rouco
A tiracolo
Seguem
Quai bandoleiros
Ao assalto dos botequins...

E a fome a gotejar...
E a fome a escorrer...
Pelos gargalos quebrados
De garrafas fedorentas.

Seló, n° 1 (1962)


ESTA É A CANDENTE TERRA...
  

         A la mémoire demon jeune frère,
          Daniel Rui de Almeida Fonseca,
          sous — lieutenant de l´armée portugaise,
          mort a l´âge de 24 ans, en combat, au
          Mozambique. 
                 
 
Esta é a candente terra de negrura
Onde debalde ficamos a nossa dor
E o sangue inocente que ainda jura,
No chão da maldição, em imenso clamor.

Olvidado na pompa e na púrpura
Da investidura de reinos sem pudor,
Construídos no terror e na mentira
Da traição à sacra promessa de amor.

Esta é a pungente terra de amargura
Onde como erva torpe medra a dura
Ditadura e cresce o crime no negrume

Da súplice solidão em que a multidão
Vencida já nem crê que o afiado gume
Que redime decepe o poder da negridão.

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MON PAYS EST UNE MUSIQUE

Mon pays est une musique que j’entends quand je n’entends plus rien.
Mon pays est une couleur où plonger est mon bonheur.
Mon pays est une musique qu’un enfant a jadis cachée dans une conque.
Mon pays est une conque. Y habite une huître dont le destin est un métier.
Mon pays est une musique. Tu l’écoutes quand je l’entends la mer vient.
Mon pays est un nombre. Dix couteaux impitoyables dans mon cœur consentant.
Mon pays est une musique. Dieu lui-même n’empêchera mon cadavre de l’écouter.
Mon pays est un nom. Le seul lieu que j’aime parce que je t’adore.
Mon pays est une musique. Ce son à nul autre pareil je le veux perpétuer.
Mon pays est un prénom qui m’empêche de mourir. Le tien, ô rose de mon sang!

Mon pays est une musique, 1986

Bibliographie


Oeuvres

  • (IT) Il mare ad ogni canto ed altri poemi, Lecce: Università degli Studi de Lecce, 1999, 87 p. (trad. Maria R. Turano)
  • Se a luz é para todos, Praia: Publicom, 06/1998, 180 p., 21 cm.
  • Poemas de Mário Fonseca, Praia: Movimento pró-cultura, 1997, n/a p.
  • L'odoriferante évidence de soleil qu'est une orange, Praia: Spleen edições, 04/1997, 134 p., 21 cm.
  • Poesia em Cabo Verde: Vera Duarte e Mário Lúcio, Lecce: Università di Lecce, 1996, n/a p.
  • La mer a tous les coups, suivi de Menu fretin, Hommes majuscules  et de Poemas da China de mim, Praia: Imprensa nacional de Cabo Verde, 1990, 200 p., 22 cm.
  • Mon pays est une musique, Nouakchott (Mauritanie): edição do autor, 1986, 172 p. (coll. Autores de língua portuguesa)

Périodiques

  • "Uma espécie de oração fúnebre", Artiletra: JORE / Jornal - revista de educação, ciência e cultura, ano XIII, n° 66 (02-03/2005), p. 5: texte sur Maneul Lopes   
  • "Encontro com a poesia: I - XVI", Artiletra: JORE / Jornal - revista de educação, ciência e cultura, ano XI, n° 46 (06-07/2002), p. 3 + 27
  • "Luz, água, lixo e Companhia Lda", Horizonte, ano I, n° 21 (1999), p. 9
  • "Uma história sem fim (II)", Horizonte, ano I, n° 3 (1999), p. 4
  • "Padronização do alfabeto: sua importância, defesa da língua cabo-verdiana do bilinguísmo e do multilinguísmo", Cultura: revista semestral, n° 2 (07/1998), p. 98-107
  • "Cultura e democracia: a cultura como substrato da democracia", Cultura: revista semestral, ano I, n° 1 (1997), p. 106-110
  • "Poesia em Cabo Verde: Vera Duarte e Mario Lucio", Palaver: culture dell'Africa e della diaspora  (Lecce), n° 9 (1996), p. 67-78
  • (FR) Sépia: revue culturelle et pédagogique francophone, n° 20 (1995):
  1. "Maintenant que j'ai deux fois...", p. 16
  2. "Poètes et autres amateurs", p. 16
  • "A cultura: alicerce, cimento e motor da caboverdianidade", Novo jornal Cabo Verde, ano III, n° 297 (1995), p. 5
  • "Nascimento de um mundo: reinvenção do mundo pela palavra", Novo jornal Cabo Verde, ano II, n° 145 (1994), p. 10-11
  • "Amanhã amadrugada: irrupção de Vera Valentina Vatel", Novo jornal Cabo Verde, ano II, n° 118/5 (1994), p. 10-11
  • "Saudade perdida: saudade de uma poesia por vir", Novo jornal de Cabo Verde, ano II, n° 115/4 (1994), p. 10-13
  • "Uma leitura de Assomada nocturna", Novo jornal Cabo Verde, ano II, n° 108/2 (1994), p. 8-9
  • "INAC quer confirmar as descobertas arqueológicas", A semana, ano III, n° 156 (1994), p. 7
  • África: literatura, arte e cultura, n° 1 (1978):
  1. "IV", p. 71
  2. "V", p. 71
  3. "VI", p. 72
  4. "VII", p. 73
  5. "XV", p. 74
  • Raízes, ano I, n° 3 (07-09/1977):
  1. "Dans le silence de cette nuit", p. 61-64
  2. "Ballade des compagnons du temps jadis", p. 64
  3. "Îles", p. 64-65
  • Raízes, ano I, n° 1 (01-04/1977):
  1. "Val-se a cor fica do odor (e o amargor)", p. 76-77
  2. "Amour de la langue française", p. 78
  • Seló: paginas dos novissimos  (suplemento Notícias de Cabo Verde, n° 323 (28/08/1962)), n° 2 (1962; reprint: ICL, 1990):
  1. "Os estrangeiros", p. (2)
  2. "Viagem na noite longa", p. (2)
  3. "Poemeto", p. (2)
  • "Fome", Seló: paginas dos novissimos  (suplemento Notícias de Cabo Verde, n° 321 (25/05/1962)), n° 1 (1962; reprint: ICL, 1990), p. (1)-(2)
  • "Como quando eu era pequenino", Cabo Verde: boletim de propaganda e informação, ano XIII, n° 152 (05/1962), p. 5
  • "Quando a vida nascer", Cabo Verde: boletim de propaganda e informação, ano XI, n° 126 (03/1960), p. 25-27

Recueils collectifs - Anthologies - Autres

  • Erica Antunes Pereira / Maria de Fátima Fernandes / Simone Caputo Gomes (ed.), Cabo Verde, 100 poemas escolhidos, Praia: Ed. Pedro Cardoso, 2016:
  1. "Eis-me aqui África", p. 101-104
  2. "Quando a vida nascer", p. 105-107
  3. "Quem tem ouvidos para ouvir", p. 108-109 
  • Roberto Francavilla / Maria R. Turano (ed.), Isole di poesia: antologia di poeti capoverdiani, Lecce: Argo, 04/1999:
  1. "La mia terra è musica", p. 99
  2. "Segnali", p. 100-101
  3. "Secret music", p. 102
  4. "Il vero vino fresco", p. 103-104
  5. "Mentre si aspetta il proprio turno", p. 105-107
  • "Quando a vida nascer", in Carmen Lúcia Tindó Ribeiro Secco (ed.), Antologia do mar na poesia africana de língua portuguesa do século XX, vol. II: Cap Vert, Rio de Janeiro: UFRJ, 1999, p. 92-95 
  • "Assomada nocturna", in Manuel Veiga, Cabo Verde: insularidade e literatura / Insularité et littérature aux îles du Cap Vert, Paris: Editions Karthala, 1998, p. 217-222 (PT) / p. 225-230 (FR)
  • "Viagem na noite longa", in Salvato Trigo (ed.), Matrilíngua: antologia de autores de língua portuguesa, vol. II, Viana do Castelo: Câmara municipal de Viana do Castelo, 1997, p. 238
  • (FR) "Mon pays est une musique", in Poésie d'Afrique au sud du Sahara 1945-1995. Anthologie composée et présentée par Bernard Magnier, Arles: Actes Sud / Ed. Unesco, 1995, p. 97
  • (FR) "Quand la vie naîtra", Poésie 94, n° 52 (04/1994), p. 101-102
  • Lúcia Cechin (ed.), Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe: poesia e conto, Porto Alegre (Brasil): UFRGS, 1986:
  1. "IV", p. 57
  2. "V", p. 57
  3. "IX", p. 58
  4. "XV", p. 58
  • "Quando nascerá a vida", in Serafim Ferreira (org.), Resistência africana (antologia poética), Lisboa: Edição di Abril, 1975, p. 95-98
  • Mário de Andrade (ed.), Antologia temática da poesia africana  (vol. I: Na noite grávida dos punhais), Lisboa: Sá da Costa, 1975,:
  1. "Quando a vida nascer...", p. 57-60
  2. "Eis-me aqui África", p. 163-167 
  • Manuel Fereira (ed.), No reino de Caliban: antologia panorãmica da poesia africana de expressão portuguesa  (vol. I: Cabo Verde / Guinée-Bissau), Lisboa: Seara Nova, 1975 (3a ed. 1988):
  1. "Fome", p. 228-230; 1988, p. 222-224
  2. "Viagem na noite longa", p. 230; 1998, p. 224
  3. "Poemeto", p. 231; 1988, p. 225
  4. "Quando a vida nascer", p. 231-234; 1988, p. 225-228
  5. "Como quando eu era menino", p. 234-236; 1988, p. 228-230
  • Francisco Fragoso, Renunciando Pasárgada, Korbeek (Belgique): edição do autor, 1974:
  1. "Quando nascerá a vida", p. 43-46
  2. "Eis-me aqui África", p. 47-51
  • (FR) "Quand naîtra la vie", in Mario de Andrade (ed.), La poésie africaine d'expression portugaise, Honfleur: ed. Pierre Jean Oswald, 1969, p. 45-49
  • Mário de Andrade (ed.), Literatura afrícana de expressão portuguesa, vol. 1: poesia, Alger (Algérie): n/a, 1967, 326 p. (reprint: Lendeln: Kraus Reprint, 1970)
  1. ​"Quando a vida nascer", p. 46-49
  2. "Eis-me aqui África", p. 173-177

Oeuvres d'homonymes (?)

  • Pilar Ovalle: wenu mamül / Maderas del cielo (cat. expo. Museo nacional de bellas artes), Santiago (Chile): MNBA, 2006, 57 p., 29 cm.: textos de Mario Fonseca e Edward Shaw
  • Residencia en el Valle: Valle de los artistas, primera etapa: marzo 2005 (catalog of an exhibition held at the MAV), Santiago (Chile): Museo de Artes visuales, 2005, 75 p., 24 cm.: textos de Mario Fonseca et alii, trad. Paul Beuchat
  • Trabalhos acadêmicos, Pétropolis: Gráfica e editora Folha Serrana, 1983, 266 p.
  • O poeta Reynaldo Chaves: conferência proferida na Academia Petropolitana de Letras a 3 de Abril de 1965, Rio de Janeiro: Pongetti, 1965, 53 p., 19 cm.
  • Ciranda: trovas, Rio de Janeiro: Pongetti, 1964, 56 p., 20 cm.
  • Luanda e  os meus amores em Coimbra, (Coimbra?): s.n., 1962?, 255 p., 22 cm.
  • Variações e Poemas de amor: poesia, s.l.: Imperial artes gráficas, 1960, 122 p.
  • Sol ardente: poesias, Petropolis: s.n., 1959?, 45 p., 19 cm.

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Etudes critiques


  • Ricardo Silva Ramos de Souza, "Mário Fonseca: a luz da liberdade em forma de poesia", A nação, n° 118 (03/12/2009), p. 7
  • António Silva Roque, "Entrevista com o poeta Mário Fonseca: a poesia sempre foi uma coisa que eu valorizei por amor… Mas a vida é maior que tudo", Artiletra: JORE / Jornal - revista de educação, ciência e cultura, ano XI, n° 46 (06-07/2002), p. 27
  • Tuna Furtado (José Luís Hopffer Cordeiro Almada, alias), "L'odoriférante évidence de soleil, qu'est une orange  ou a poesia como instância do remorso", Latitudes, n° 12 (09/2001), p. 33-39  (web)
  • Alírio Dias de Pina, "Mario Fonseca, concorre ao prémio da melhor obra", A semana, ano VIII, n° 367 (1998), p. 19
  • António de Nevada, "Carta ao tio Djom à volta de uma consideração crítica do poeta Mário Fonseca em torno de Acto primeiro...", Artiletra: JORE/Jornal revista de educação, ciência e cultura, ano VI, n° 23 (03-04/1997), p. 10 + 19
  • Alain Derey, Faut-il brûler Mario Fonseca?, Praia: Movimento pró-cultura, 1997, n/a p.
  • Bernard Magnier, "Mario Fonseca, son pays est une musique", Notre librairie: revue du livre: Afrique, Caraïbes, Océan Indien, n° 112 (1993), p. 49-53

La mer à tous les coups...

(1990)

L'odoriferante evidence...

(1997)

Se a luz...

(1998)