Antonio de NEVADA
(1967 - )

Biographie


António Manuel Barbosa Brito de Neves, alis António de Névada, est né le 7 septembre 1967, à Lisbonne.
Il suit pourtant un cursus scolaire normal à Mindelo, qui devient sa ville.
Il repart poursuivre ses études à Coimbra, au Portugal, et devient ingénieur.
Dans le même temps, il s'adonne au théâtre, tout en écrivant des poèmes.
Pour le reste, on ne sait que très peu de choses sur lui, si ce n'est qu'aujourd'hui, il réside et travaille à Angra do Heroísmo, sur l'île Terceira, aux Açores.

Une étude reste à faire.

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Oeuvres littéraires


António de Névada est un poète capverdien qui, à ce jour, a publié deux recueils de poésie: Acto primeiro ou o designio das paixões  en 1993 et Esteira cheia ou o abismo das coisas  en 1999.
Sa poésie se présente généralement sous forme de "chants" (Cantos).

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CANTO IV da canção VOZES EM DISSONÂNCIA OU APENAS VOZES

Fui navegador e dobrei o mundo para lá do Adamastor.
Nem os versos de Camões me valeram nem as líricas
E as rimas em redondilhas, labutei o inelutável e contra Zeus
Perdura a luta e o luto, Confúcio está coxo e prostrado
Na sua poltrona, Picasso já não pinta máscaras africanas
E pouco me importa a orelha de Van Gogh!

Cristo, sem a varinha e o condão, já só faz milagres por encomenda,
E esqueceu-se da partilha do vinho e do pão! Ainda assim, há
Quem crê que a essência do homem nasce da sua vocação do amor,
Que o segredo da vida seja o mel que colhemos do melhor favo,
Que nada faça mais sentido que a simplicidade de nos recolhermos ao aconchego da lua.

Vimos o albatroz debalde fulminado em pleno voo
E o arcanjo tocando a lira e o banjo cair do céu abaixo
E estatelar-se no chão! Ó homem chega a ser
O que és - diria Píndaro, indelével e assaz...
A memória é a ínfima parte da alma que recolhe a pedra do tempo!


Entre o vazio e os escombros restamos nós, e não há terra firme
Nos sonhos que nos assombram! No lugar da perenidade os braços
E o cansaço, a cadência longa e a louca insinuando-se à morna e ao tango,
O flamengo dedilhando a voz rugosa e o fado e a milonga desapaixonada,
O peito pulsando esta dança e a música em crescendo pelo caminho da solidão.

Sobre a alma do nómada a contemporaneidade e a coetaneidade
Baralham-se numa orgia caótica! Certamente, não será o mundo
Que doaremos ao mundo! Que a morte nos não doa e a vida doendo
Se encarregue da dor que permanece na usura e no âmago das coisas!
O latido distante da cadela em cio fere os ouvidos do violinista!
(atrás dela seguem cães famintos...)


No limiar da banalidade, as pontas cintilantes da constelação,
Os gritos e a alegria das crianças devolvem ao quotidiano
O barro lamacento e as casas caiadas! E desfiando o novelo
Das palavras o eco labiríntico prevalece na dramaturgia coeva.
Não se tratam de histórias ou factos, dos lugarejos de Roma quando visitei Felini!

Não encontrei em viagem alguma a ponta ao fio.
Vou desfazendo os membros e os dedos num arabesco,
As teias e os bordados que deflagram em formas barrocas,
A mente e o ser, a meada completa e o novelo à alma.
As palavras ocas, doravante, o fio sem ponta que lhe pegue!

Eis a cidade e o caos que habito, Basquiat não me indicou o caminho
Nem as portas da via latina, decompus os cacos que soçobram da composição
E escrevo a toada e o canto onde a vida deposita o seu peso incontestável!

Que amo a vida, eis a minha verdadeira fraqueza...

in Revista África e africanidades, n° 13 (2011), p. 13-14

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MEDITACÕES - III

E arrastaram os botes
para remendar os remos
as velas rotas.
Sustentam nos braços
o tempo e os pássaros
a terra grávida.

O sal arde sobre os ombros.
As lágrimas humedecem os olhos.
Os elementos diluem-se no abismo das coisas.

Quilhas e cascos servindo de abrigo,
e os moluscos incrédulos
entreabrem as conchas
espreitando a imensidão dos dias.
Ao longe
na cidade imersa
em lamentos
repete-se o refrão
ao longo da canção!
A distância que nos separa
das enseadas da terra,
as rochas em redor das pedras
envolvendo a maresia,
o vazio, az ruas poeirentas
onde o ébano possui a noite,
só o vazio
o completo vazio da existência
e os mastros vergados
o pavor e os óbitos, a elegia toda
o epitáfio dos deuses, as horas minguadas
o vento forte, os chifres da cabra
no tambor dos anjos, transbordar o inútil
a última folha amarela, tudo isso é inútil.
E a invalidez do dia,
meus olhos cegos, observam
fixamente o brilho das coisas.

O fogo estende
o tronco em chamas
para dentro da brasa.

in Esteira cheia ou o abismo das coisas, 1999


Bibliographie


Oeuvres

  • Esteira cheia ou o abismo das coisas, Braga: Angelus Novus, 1999, 82 p., 24 cm. (coll. Letras áfricanas)
  • Acto primeiro ou desígnio das paixões: poesia, Praia: ICL, 06/1993, 60 p. (coll. Poesia)

Périodiques

  • "Meditações - III", Açorianidade, n° n/a (13/05/2017), p. 325  (web)
  • ATLántida. Angra do Heroismo: estudos e criação literária  (Azores), vol. LIII (2008):  (web)
  1. "Cantos VII-XI da canção Vozes em uníssono", p. 73-80
  2. "Uma leitura possível: os travalhos e os dias", p. 93-102
  • "Prelúdio", Artiletra: JORE/Jornal revista de educação, ciência e cultura, ano VII, n° 24 (06-07/1997), p. 2 
  • "Carta ao tio Djom à volta de uma consideração crítica do poeta Mário Fonseca em torno de Acto primeiro...", Artiletra: JORE/Jornal revista de educação, ciência e cultura, ano VI, n° 23 (03-04/1997), p. 10 + 19

Recueils collectifs - Anthologies - Autres

  • "De Mindelo", in Erica Antunes Pereira / Maria de Fátima Fernandes / Simone Caputo Gomes (ed.), Cabo Verde, 100 poemas escolhidos, Praia: Ed. Pedro Cardoso, 2016, p. 157
  • "Canto IV", in Amosse Mucavele (ed.), A arqueologia da palavra e a anatomia da língua: antologia poética, Maputo: Revista de literatura moçambicana e lusófona, 2013, p. 87-89
  • Ricardo Riso (ed.), "Cabo Verde: antologia de poesia contemporânea", Revista Africa e , Afrícanidades, ano IV, n° 13 (05/2011):
  1. "Canção terceira", p. 8-12
  2. "Vozes em dissonância ou apenas vozes: canto IV", p. 13-14
  • Francisco Fontes (ed.), Destino de Bai: antologia de poesia inédita cabo-verdiana, Coimbra: Saúde em português, 06/2008:
  1. "Vozes em uníssono: cantos III", p. 241-242
  2. "Vozes em uníssono: cantos IV", p. 243-244
  3. "Vozes em uníssono: cantos V", p. 245-248
  4. "Vozes em uníssono: cantos VI", p. 249-250
  • "(Canto à semeadura)", in José Luis Tavares (ed.), "6 poetas vivos de Cabo Verde", Confraria. Arte e literatura, n° 18 (01-02/2008), en ligne (web)

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Etudes critiques


  • Ricardo Silva Ramos de Souza, "António de Névada, Esteira cheia ou o abismo das coisas", A nação, n° n/a (05/08/2010), p. 16

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Acto primeiro...

(1993)

Esteira cheia...

(1999)